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Thursday, November 30, 2006

CIGARRO - ISTO É QUE É DROGA



Cigarro é pior que maconha, cocaína, crack e álcool, de acordo com o cancerologista Drauzio Varella, que no seu dia-a-dia sempre topa com algum organismo humano deteriorado pela nicotina

por Fred Melo Paiva
(disponível em http por www2.uol.com.br/trip/newscotina/materias/drauzio.htm)

O médico Drauzio Varella é daquelas figuras que, de tanto conhecimento a respeito de um determinado assunto, se fazem obrigatórias quando se fala sobre o tema. Não é à toa: Drauzio é um dos mais respeitados especialistas em câncer do País, sendo responsável pelo tratamento de pacientes do Hospital Sírio Libanês, em São Paulo; é diretor do Centro de Pesquisas e Tecnologia da Universidade Paulista (Unip), e âncora do programa Dr. Drauzio Varella Pergunta, um quadro de entrevistas transmitido pela TV Universitária, TV Senado e CBI (Canal Brasileiro da Informação). Além disso, coordena há 10 anos o programa de combate à AIDS da Casa de Detenção de São Paulo, o Carandiru. Aos 55 anos, ele vai na contramão de uma das estatísticas mais nefastas, aquela que dita que 90% dos fumantes dispostos a largar o cigarro acabam retornando ao vício. Hoje um maratonista esforçado, fumou por 19 anos. "Parei há 20 e ainda sonho com cigarro. Outro dia, saindo do hospital, distraído, abri a porta e veio um cheiro de tabaco que me deu uma sensação legal", conta. "Pode um negócio desses, 20 anos depois? Isso é que é droga." Certo de que a "nicotina é a coisa que mais vicia, a que mais provoca dependência física", Drauzio ainda se indigna com o fato corriqueiro, ao menos no Brasil, de haver anúncios tentando lhe vender por lebre um gato capaz de provocar crises de abstinência em questão de minutos. "Não tenho nenhum problema moral com o cigarro, como não tenho com a maconha nem com a cocaína. Se o cara quiser cheirar, que cheire. Não tenho nada com isso", diz. "O problema aí é diferente de qualquer moralismo. O problema é viciar as crianças: isso não pode."

TRIP O que o senhor acha da publicidade de cigarros que usa os esportes como tema?
DRAUZIO Toda a publicidade de cigarro deveria ser proibida, ou então vão ter de admitir que se faça propaganda de maconha na televisão. Isso seria uma coisa até menos perniciosa, porque a maconha não é tão compulsiva. Nem a cocaína é tão compulsiva quanto o cigarro - eu não conheço ninguém que fume um cigarro a cada 3 dias, como se faz com essas outras drogas. Agora, ligar cigarro a esporte é uma grande sacanagem. Dá a impressão de que o cara que fuma faz tudo o que eles mostram. Isso só não é proibido no Kuwait, na Arábia Saudita, em Zâmbia. O mais grave é o nosso governo admitir isso. Chega a ser triste: vejo que vivo numa sociedade sem capacidade sequer de defender suas crianças.

TRIP O senhor disse que propaganda de maconha seria menos grave que de cigarro. Tabaco faz mais mal que maconha?
DRAUZIO Para saber exatamente seria preciso fazer estudos comparativos, e esses estudos não existem. Mas o fato é que o cigarro provoca uma dependência que é diferente das outras drogas. Você fuma um baseado, apaga, e guarda o resto para mais tarde. E mais tarde você não está mais nessa, vai fazer outra coisa, deixa para o dia seguinte. Um grande maconheiro fuma um ou dois baseados por dia. Com cigarro, são 60 por dia, percebe? A maconha também joga fumaça no pulmão, mas o problema do cigarro é a quantidade.

TRIP Essa quantidade toda faz com que a pessoa se vicie mais fácil?
DRAUZIO A nicotina provoca uma dependência diferente. Se é um baseado, você consegue guardar para mais tarde. Mas você não tem controle sobre o cigarro. A nicotina cai na circulação e vai direto para o cérebro, mais depressa do que se fosse injetada na veia. Da mesma forma, ela é excretada muito rapidamente pelo corpo. Aí vem a crise de abstinência. No caso da maconha, a excreção do TetraHidroCarabinol, o THC, é muito lenta, o que faz com que essa crise demore mais para aparecer.

TRIP Quanto tempo em média a pessoa leva para se viciar em cigarro?
DRAUZIO É imediato. Entre pessoas que pegaram o cigarro para experimentar cinco vezes, 60% delas estão viciadas para sempre. É um dado da Organização Mundial da Saúde. Olha, droga nenhuma é assim.

TRIP Então é uma coisa próxima ao crack?
DRAUZIO Pior, muito pior, não fala isso... Tem cara que fuma crack ocasionalmente. Trabalho no Carandiru há 10 anos. Quando aparece alguém com tuberculose, escarrando sangue porque o pulmão está inflamado, pergunto se tem cabimento jogar fumaça dentro do pulmão. 'Não, doutor, o senhor está certo'. Na semana seguinte o cara aparece: 'Doutor, a maconha larguei, o crack não fumei mais, mas o cigarro ainda não consegui'. Você tranca o cara na solitária, quando ele sai de lá a primeira coisa que faz é pedir um cigarro. O carcereiro dá porque sabe o que representa aquilo.

TRIP Gostaria que o senhor fizesse um paralelo entre o vício do cigarro e o hábito da bebida.
DRAUZIO O total das pessoas que bebem e ficam dependentes do álcool é uma minoria. Todo o mundo bebe uma cervejinha. Eu tomo, todo o mundo toma. Mas quantos vão beber até o fim da vida, se arrebentar, ficar doentes por causa do álcool e continuar bebendo até morrer? Aí vão falar: o Brasil tem muito alcoólatra. Tem, sei lá, 12 milhões, 10 milhões de bêbados, o que é uma porcentagem pequena dos que consomem bebida. Agora, quantos fumantes começam a fumar e nunca mais param? Todos.

TRIP Tem gente que fuma e se sente mais tranqüila...
DRAUZIO O cara diz que não pára de fumar porque o cigarro tranqüiliza. Mas será que você nasceu e agora precisa de um tranqüilizante para viver? É aquela história: tem gente que acha gostoso tomar uma cerveja e fumar. Gostoso, o caralho. Como o álcool dissolve a nicotina e funciona como diurético, naquela hora em que você urina está urinando a nicotina. Seu cérebro detecta a redução da substância e isso te deixa ansioso. Outras pessoas dizem: 'meu pai viveu até os 70 anos e fumava'. Tá bom. E se não fumasse? Vai ver em que estado ele chegou aos 70 anos, como estavam suas artérias.

TRIP O senhor se lembra de algum caso de tratamento de doenças provenientes do fumo que o chocou de forma especial?
DRAUZIO Cansei de ver gente que está nas últimas e fuma pela traquéia. Os fumantes têm também um problema arterial nas extremidades do corpo, e isso vai dando gangrena. Dá no dedão do pé, corta o dedão. Se o coto de amputação começa a ficar preto, amputa-se o pé. Isso se repete, e corta-se a perna mais acima. Você vai mutilando o cara e ele não pára de fumar. Porra, não é brincadeira. Não dá para dizer que o cara que passa por isso é fraco. Ele é fortíssimo, pois estão cortando seu corpo aos pedaços e ele resiste, e continua fumando. Isso é que é droga!

TRIP Num caso desse, os cigarros de baixos teores teriam sido menos devastadores?
DRAUZIO As mulheres fumam cigarros de baixos teores e a incidência de câncer de pulmão na mulher está praticamente igual a do homem. A pessoa deve fumar o cigarro mais forte, porque ele é menos prejudicial. Explico: não é você quem ajusta a quantidade de nicotina que quer fumar, mas o seu cérebro. Se der uma tragada num cigarro fraco, vai segurar mais, pois o cérebro quer uma certa quantidade de nicotina na circulação. Se fumar o mais forte, vai dar uma tragada mais curta: menos fumaça no pulmão, menos risco.

TRIP O cigarro então é uma droga sem saída: não há uso ocasional, não existe na verdade o tipo ou a marca menos perversa...
DRAUZIO Uma parte da sociedade vive disso e ganha muito dinheiro, porque é um comércio de consumidores cativos. A estratégia da indústria do fumo é viciar as pessoas. É a estratégia de qualquer droga: vender para quem tem mais chance de se viciar. Os publi-citários sabem disso, e dirigem a mensagem para as crianças e os adolescentes. Honestamente, eu vejo um diretor executivo da Souza Cruz, de terno e gravata Gucci, e vejo mais beleza no traficante de cocaína, juro por Deus. O traficante ao menos corre risco, pode ser morto a qualquer momento.

TRIP O que você acha dos publicitários que fazem campanhas para as marcas de cigarro?
DRAUZIO Eles não têm vergonha... E também não têm desculpa: a menos que sejam péssimos publicitários, eles definem um público-alvo para aumentar seu mercado, têm conhecimento total do objetivo de suas ações. São pagos para viciar as crianças. São contratados especificamente para isso.

TRIP Parece que o senhor os vê como cúmplices de um crime.
DRAUZIO Total. Eu não tenho nada contra o que as pessoas fazem para ganhar a vida. Cada um acha um jeito, tem gente que vende cocaína. Não tenho nada a ver com isso, mas não aceitaria um papel desses - Deus me livre carregar na consciência esse tipo de crime. Porque induzir crianças à dependência é crime, não tem outra palavra. Disfarçar essa estratégia de indução, vestir isso com uma roupagem glamourosa, é crime! Toda a publicidade do cigarro é assim: viciam as crianças, e algumas nunca mais vão conseguir largar de fumar. Estou com o saco cheio de perder doentes que começaram assim. Nesse momento, estou com três morrendo de câncer de pulmão aqui no hospital. Os caras morrendo e fumando. Tenho amigos publicitários, tudo bem. Mas também tenho amigo ladrão. Cada um faz o que quer, mas crime é crime.

TRIP O governo tem combatido as peças publicitárias do cigarro imprimindo aquelas tarjas do Ministério da Saúde nas emba-lagens dos maços. Isso tem algum valor?
DRAUZIO É totalmente inútil, uma hipocrisia. Não tem nenhum impacto, tanto que a indústria aceita. Os americanos agora proibiram quase que de vez a publicidade de cigarro, e as companhias terão de pagar mais de US$ 200 bilhões de indenização ao governo. Por que não fazem isso aqui? Simplesmente porque lá eles têm governantes que sabem defender a população, e os nossos aqui são incompetentes. Nós imitamos os americanos em tudo: temos McDonald's, nos vestimos como eles. Por que não copiamos os seus direitos? Se o câncer de pulmão é provocado pelo fumo, então a conta do tratamento deveria ser paga pelas companhias. É preciso dividir o prejuízo e proibir a publicidade.

TRIP E quem seria capaz de peitar os fabricantes de cigarro?
DRAUZIO As empresas de cigarro fazem lobby político no Senado, dão di-nheiro para deputados. Mas propaganda de fumo, por exemplo, é uma coisa suficientemente grave para justificar a ação do presidente da República. Só que precisava de um estadista mesmo, uma pessoa de força, de princípios, que encarasse isso e dissesse: 'Acabou a brincadeira, não tem mais festa aqui'.

TRIP Para finalizar: será que é possível dizer alguma coisa para os que ainda não caíram na armadilha dos empresários do tabaco?
DRAUZIO Olha, eu não confio muito na capacidade de planejamento do homem a longo prazo. Nós fomos selecionados entre planejamentos a curto prazo. Sobreviviam os que planejavam a vida no momento seguinte. Agora tem comida, vamos lá, come. A espécie não foi selecionada para planejar daí a vinte, trinta anos. Tanto tempo assim não está no nosso horizonte de prevenir. Não temos uma circuitaria cerebral que nos permita encarar um futuro tão distante com seriedade. Ter uma velhice boa e tal, isso é uma abstração teórica. Precisamos de uma enorme disciplina para a gente se convencer.

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