SOU UM FETO QUERO VIVER - pela revista Listen - AMY YINGLING
Sou um feto. Encontro-me no processo de me transformar num bebê. Durante horas a fio, mamãe fica em empurrando de um lado para outro, causando-me grande desconforto. Você, por certo, acha que ela deveria saber que está me machucando e evitar essa movimentação
Estou envolvido por um líquido protetor, o qual impede que eu sofra lesões mais sérias quando mamãe me atinge com seus empurrões. Costumo beber esse líquido quando sinto sede. Algumas vezes, percebi que tinha uma consistência diferente e me fazia sentir uma espécie de excitação seguida de entorpecimento. Não podia sentir meu sangue correndo através de todos os vasos. Parecia-me que alguns estavam entupidos. Mas espera um pouco! Acabo de ouvir alguém falando a respeito de alguma coisa chamada álcool. Deixe-me ouvir melhor.
Estão dizendo que essa substância líquida tem cheiro de álcool. Isso não me faz sentido, pois não sei o que é álcool, embora já tenha ouvido falar dele antes. Um dia desses mamãe foi ao consultório médico e o doutor explicou-lhe que o álcool é uma droga. Disse ainda que se ela não parasse de usar bebidas alcoólicas, poderia nascer com alguns defeitos, e que eu não seria um bebê normal.
Ela porém , continuou a me fazer beber aquele líquido que estava me fazendo ficar doente. Não quero ser diferente dos outros bebês.
Ultimamente, estou me sentindo um tanto agitado. O problema é que não consigo fazer todos os movimentos que deveria corresponder ao meu desenvolvimento normal. Percebo que alguma coisa não está bem. Acho que isso tem a ver com algumas das primeiras coisas que posso me lembrar. Eu estava ocupado na tarefa de acrescentar novas partes ao meu corpo, quando mamãe bebeu grande quantidade de álcool. Depois disso, eu não pude completar a tarefa tão bem quanto antes. Nem mesmo cheguei a terminar o trabalho. Tive que passar para outra fase.
Por causa desse líquido que mamãe me fez beber, não pude formar todas as partes do meu corpo tal como os outros bebês: meu rostinho está achatado entre os olhos e meus olhos quase não se abrem; tenho visão dupla, porque sou vesgo; minhas pernas não possuem a curvatura correta e sou magro e pequeno. Minha cabeça também é pequenina.
Enquanto eu estava tentando fabricar as células do cérebro, mamãe continuava a beber álcool. Eu procurava fazer rapidamente meu trabalho, confeccionando minhas células cerebrais, mas o álcool destruía parte do meu esforço. Agora, tenho pouca capacidade de raciocínio.
Ouvi o médico dizer que o álcool é a terceira maior causa do retardamento mental, e eu provavelmente serei um retardado, um idiota. Ele explicou também que o Instituto Nacional de Saúde fez um estudo envolvendo 350 crianças de sete anos de idade, e descobriu que 46% dos que nasceram de mães alcoólatras tinham um índice de QI abaixo de 79. Verdadeiros retardados mentais.
Há um cordão que sai da minha barriga, chamado cordão umbilical, que me prende a um tecido interno na barriga da mamãe, a placenta. Ele serve para conduzir a mim todos os alimentos. Aparentemente, o álcool atinge meu organismo através da placenta e do cordão umbilical.
O médico contou à mamãe que por causa do meu tamanho em comparação ao dela, havia dez vezes mais álcool circulando em meu sangue. Se ela, por exemplo estivesse com uma porcentagem de 0,045 de álcool no sangue, eu teria 0,45. Mamãe não sabia bem o que isso significava, por isso, o doutor resolveu explicar melhor.
Se mamãe tivesse 0,045 de álcool no sangue, isso significaria para ela uma leve intoxicação. Entretanto, mesmo pesando 63 quilos, se o seu sangue contivesse 0,45% de álcool ( dez vezes mais ) ela entraria em coma. Ele lhe perguntou quanto ela achava que eu devia estar pesando. Uns dois quilos, foi sua resposta. Então o médico procurou mostrar-lhe o quanto essa porcentagem de álcool poderia prejudicar meu corpinho.
O papai também falou a mamãe acerca de uma mulher chamada Christt Ulleland. Ela fez um estudo em bebês de mães alcoólatras e concluiu que todos eles tinham defeitos semelhantes. Eram menores e pesavam menos que os demais bebês. A esse problema ela denominou Fetal Alcohol Sydrome ( Síndrome Fetal do Alcoolismo).
Papai explicou outras diferenças entre os bebês normais e os demais atingidos pela Síndrome do alcoolismo. Uma criança subnutrida, por exemplo, atinge o tamanho de uma outra saudável por volta dos quatro anos de idade, enquanto um bebê filho de mãe alcoólatra, atingido pela SFA, alcança apenas dois terços da média normal; seu peso fica situado em torno de 50% da média e sua estrutura será menor por toda a vida. Ora, eu não quero ser uma criança menor que as outras.
Mamãe é uma dessas pessoas que são chamadas alcoólatras crônicas. Isso significa que ela necessita de doses maiores para demonstrar os efeitos aparentes do álcool. Não quero dizer porém, que por essa razão ela é menos afetada. Seu corpo já está habituado ao consumo do álcool, o que retarda os efeitos visíveis da embriaguez.
Certa noite papai citou um trecho da Bíblia para mamãe. O texto relatava que o anjo foi encarregado de instruir a mãe de Sansão para que não bebesse vinho ou bebida forte durante a gravidez.
Como eu gostaria que mamãe tivesse dado ouvidos a todas essas coisas que lhe foram ditas. Não é somente a ela que o álcool afeta, mas principalmente a mim. Aqui estou, tentando me tornar um feto bem desenvolvido, mas a bebida me atrapalha.
Mamãe agora está me empurrando com mais força. Sinto meu corpo esticado. Posso ver um raio de luz brilhando em direção ao meu rosto. Estou nascendo! Cheguei ao mundo exterior! O médico e as enfermeiras olham para mim. Estão dizendo que pareço muito agitado e nervoso. O médico explica ao papai que isso é por causa das bebidas alcoólicas que mamãe bebeu durante a gravidez. O meu sistema nervoso central tornou-se dependente do álcool. Meu desenvolvimento foi retardado.
Agora estão me levando para junto da mamãe para que ela me veja. O médico me coloca nos braços dela, mas ela me empurra e vira o rosto para o outro lado. E começa a chorar. Eu não compreendo. Não sou culpado pela minha aparência. Você é que me tornou assim.
Mamãe. Abrace-me.
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